

Autoformação em projetos educacionais
Em
entrevista para a revista Colabor@, Brigitte Albero fala sobre Autoformação
em projetos educacionais.
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Autoformação em projetos educacionais
Entrevista
com Brigitte Albero.
Brigitte Albero é Maître de conférence, vinculada
ao Institut Nacional de Recherche Pédagogique-INRP e ao Département
Technologies Nouvelles et Education-TECNE (Paris). É autora do
livro “L´autoformation en contexte institucionnel” (2000)
e organizadora do livro “Autoformation et enseignement supérieur”(2003)
.
Em suas publicações recentes, Albero aponta para o desenvolvimento
de ambientes diversos (sites, plataformas colaborativas, centros de recursos
e multimídias, entre outros), que pressupõem a autoformação
como uma modalidade inerente, concebidos para um público supostamente
autônomo e com a desenvoltura necessária para levar a bom
termo o seu projeto de aprendizagem. Entretanto, a prática revela
a multiplicidade e a complexidade que envolvem a noção de
autoformação.
É uma noção plural, nos termos de Carré (apud
Albero, 2003, p. 28) que surge em 1967, como fenômeno social, referindo-se
a diferentes dimensões do aprender por si mesmo. É um tema
atual que envolve questões epistemológicas, teóricas
e práticas.
UNISINOS
- O seu último livro trata sobre autoformação e ensino
superior. Não é paradoxal ?
Brigitte Albero - Pode parecer à primeira vista... Na realidade,
o ensino superior é, por definição, o lugar para
a formação de competências de autoformação.
UNISINOS
- Se o ensino superior é o lugar, por excelência...
Brigitte Albero - Veja, se for considerado como o lugar do ensino magistral
onde o mestre professa um saber ideal inacessível aos comuns dos
mortais, então, efetivamente esta aproximação pode
parecer surpreendente.
Entretanto, se o ensino superior for considerado como um espaço
social de desenvolvimento de níveis elevados de competência
e de especialização, então a preparação
sistemática das pessoas na direção da autoformação,
como modalidade de atualização de si mesmo, aparece quase
como uma decorrência disso.
UNISINOS
- Sim, certo. Na primeira situação pareceria surpreendente.
Nesse caso, o que seria entendido por autoformação e como
ocorreria a incorporação dessa nova dimensão?
Brigitte Albero - Tens toda razão... Os discursos, mas também
as práticas pedagógicas, têm sentidos totalmente diversos.
Num contexto institucional tradicional, geralmente, a autoformação
é entendida como autodidaxia em que produtos pedagógicos
e tecnológicos são disponibilizados ao usuário e
compete a ele fazer uso adequado e realizar o seu projeto de aprendizagem.
O desinteresse constatado sugere que essa seja uma modalidade fadada ao
fracasso. Na inclusão de professores e tutores, a individualização
do ensino ocorre quase da mesma maneira como a oferecida para um grupo
de pessoas. Então autoformação é sinônimo
de personalização ou de individualização.
Essa modalidade pode funcionar em pequenas estruturas que envolvem um
número reduzido de aprendizes. Não é o caso quando
implica centenas de estudantes ou se funciona em escala institucional
com milhares de pessoas envolvidas...
UNISINOS
- Nesse sentido, qual é a maneira mais...
Brigitte Albero - Passar receitas não é coisa fácil
quando se trata de educação! Os projetos educativos que
funcionam de uma forma, digamos assim, específica, uma vez que
não se enquadram como formação personalizada, apresentam
um certo número de características, tais como: um ambiente
de aprendizagem rico e eclético (não se restringe a uma
única concepção de aprendizagem); recursos materiais
e humanos complementares e não redundantes; modalidades diversificadas
de auxílio e de acompanhamento do aprendiz, apoio assegurado por
pessoas atentas e disponíveis ...uma pedagogia de autonomização
e de sucesso.
UNISINOS
- Antes de ir adiante, poderíamos conferir o que estamos entendendo
por "pedagogia do tornar-se autônomo e de sucesso" ?
Brigitte Albero - Em primeiro lugar, uma pedagogia que não se restringe
à oferta de informação, mas que mobiliza uma variedade
de meios para favorecer o processo de apropriação dessa
informação e de transformação em conhecimento
pelo aprendiz. Em segundo lugar, uma pedagogia que não visa prioritariamente
à seleção e à triagem de público, mas
que permite a cada pessoa se desenvolver segundo - e se possível
ultrapassar – as suas potencialidades e capacidades.
UNISINOS
- Na sua opinião, a incorporação de tecnologias digitais
na educação tem contribuído para a implementação
dessa pedagogia?
Brigitte Albero - Tal como geralmente vem acontecendo, não…
Por razões econômicas ou por comodidade, as tecnologias digitais
têm sido utilizadas, em geral, segundo uma lógica neo-taylorista
de aprendizagem. E, se ainda acrescentarmos uma perspectiva econômica
ultra-liberal, ficamos longe das utopias de emancipação
que animaram os maiores projetos de educação popular do
quais somos os herdeiros, num momento em que os recursos tecnológicos
possibilitam, mais do que nunca, atingir um número incalculável
de indivíduos.
Portanto, esses recursos não estão aí por nada…
São as lógicas implícitas na operacionalização
dos mesmos que precisam ser (re)pensadas e controladas caso se procure,
enquanto ator social, contribuir para uma sociedade democrática…
UNISINOS
- Como contribuir para ajustar essas lógicas implícitas
na direção de uma sociedade mais democrática?
Brigitte Albero - Do ponto de vista conceitual, parece importante não
perder de vista que um projeto educativo não se reduz a questões
técnicas, arquitetônicas e pedagógicas. Está
estreitamente vinculado a um projeto de sociedade e, portanto, a um projeto
político. Nesse sentido, se a autonomia for considerada como uma
questão relativa a cada pessoa - a qual é ou não
autônoma - e não depende do projeto educativo, ou, ao contrário,
se a autonomia for considerada como uma competência e que cada projeto
educativo pode contribuir para o seu desenvolvimento, aí não
estamos nos referindo nem ao mesmo projeto de sociedade, nem ao mesmo
projeto político.
Numa perspectiva prática, no âmbito da educação,
é necessário pensar e inventar dispositivos, modalidades,
instrumentos que ajudem as pessoas a ultrapassarem obstáculos na
medida em que forem surgindo.
Aí está uma possibilidade de militância cidadã,
mas fico nos limites da minha competência de pesquisadora em educação...
UNISINOS
- Poderia dar alguns exemplos desses obstáculos na implementação
de projetos educativos com a inclusão de tecnologias digitais?
Brigitte Albero - Quando existe uma intenção efetiva de
auxiliar as pessoas, nessa perspectiva da pedagogia de autonomização
e de sucesso que mencionei, é possível considerar pelo menos
três tipos de obstáculos:
- Os obstáculos relativos à acessibilidade técnica
e material. O aumento da dependência em relação aos
suportes técnicos sofisticados implica um atendimento que assegure
o funcionamento e atualização de ferramentas, possibilidades
de conexão, auxílio on-line, um orçamento compatível...
- Os obstáculos relativos à acessibilidade cognitiva e metacognitiva.
A desmaterialização dos espaços de trabalho, a fragmentação
de conteúdos e de percursos de formação, bem como
modalidades de funcionamento e recursos tecnológicos disponíveis
projetam a pessoa num mundo abstrato. As competências clássicas
de raciocínio, de memorização, de expressão,
de organização etc. são integradas a uma nova cultura
em que se pressupõe não apenas o domínio de linguagens
e de códigos simbólicos específicos, mas também
de metacompetências de controle, de autodireção e
de auto-regulação.
- Os obstáculos relativos à acessibilidade psico-afetiva.
A distância física e psíquica dos professores e dos
pares pode ter efeitos positivos (sempre temos desejo de, um dia ou outro,
encontrar um professor ou um colega… a distância…).
Entretanto, seria um engano pensar que aconteceria naturalmente, sem problema
algum. A virtualização dos espaços e dos recursos,
em particular, das relações interpessoais, fragiliza os
mais desprovidos. O indivíduo deixa de ser apoiado pelo grupo ou
por outra pessoa disponível (um professor, um colega). Isso aumenta
a necessidade de autoconfiança e da capacidade de autocontrole,
o que são características de aprendizes que já são
bem sucedidos.
Então para que tipo de público será concebido esse
projeto educativo, se não se leva em conta esses três níveis
de obstáculos ?
UNISINOS
- Como poderíamos aprofundar essa reflexão no sentido de
reduzir esses obstáculos?
Brigitte Albero - Fundamentada na produção existente e em
análises de projetos educacionais, selecionei sete dimensões,
sobre as quais me parece proveitoso trabalhar concretamente. São
elas: a técnica, a informacional, a metodológica, a social,
a cognitiva, a metacognitiva e a psico-afetiva. Para as pessoas que desejem
maiores detalhes sugiro ler o artigo "L'autoformation dans les dispositifs
de formation ouverte et à distance: instrumenter le développement
de l'autonomie dans les apprentissages", disponível em <http://jacques.rodet.free.fr/Site%20documentaire/fichiers/auton04.pdf>.
UNISINOS
- Poderia ilustrar com alguns exemplos?
Brigitte Albero - A dimensão técnica pode parecer a mais
evidente. Em termos de competências exigidas, concordamos com a
necessidade do domínio das tecnologias (especialmente as digitais),
da atualização sistemática desse saber-fazer, da
capacidade de manipulação de uma variedade de ferramentas
e equipamentos. Pode-se esperar que todos os aprendizes saibam utilizar
sem dificuldades um software, um CD-ROM ou uma plataforma de trabalho
colaborativo e que sejam capazes de procurar auxílio para resolver
um problema técnico. Mas, e se não for exatamente assim?
E se nem todos tiverem condições para aprender ou para ir
em busca de apoio ou de auxílio? As respostas a essas questões
remetem ao projeto educativo e em que medida o mesmo se propõe
a assegurar condições de superação dessas
dificuldades.
Citando um outro exemplo menos evidente: a dimensão psico-afetiva.
Sem querer fazer o papel do psicólogo clínico, mas levando
em consideração aspectos extremamente importantes da capacidade
de aprender, pode-se questionar como o projeto educativo prevê a
possibilidade de auxiliar o aprendiz a: adquirir uma conduta de distanciação
crítica a respeito do seu trabalho e da sua produção;
regular suas emoções durante as interações
e realização de tarefas (por exemplo, suas crenças,
frustrações etc); e ser capaz de tomar iniciativa, de assumir
riscos.
Além disso, o projeto educativo deveria dar condições
ao aprendiz de: ter consciência de seus (bio)ritmos e preferências
(perfil); juntar eficácia e prazer na sua aprendizagem; assumir
sua parte de responsabilidade no projeto de formação; atualizar
uma imagem positiva de si e de sua própria eficácia; tolerar
uma relativa incerteza; analisar o erro e fazer dele uma fonte de aprendizagem
etc.
UNISINOS
- Nesse seu último livro há intervenções de
diversos especialistas do universo educativo. Como foi organizada essa
participação?
Brigitte Albero - Na minha modesta posição, tento reunir
forças e inteligências, sensibilizar uma diversidade de especialistas
que intervém nesse meio. Do ponto de vista conceitual, é
impossível sustentar uma abordagem enciclopédica. O trabalho
em equipe se impõe. Fiquei com a responsabilidade de promover espaços
de reflexão o que resultou, entre outras coisas, nessa produção
coletiva expressa no livro citado, que foi estruturado em três partes:
Na primeira parte, aprofundou-se a noção de autoformação
a partir de uma perspectiva filosófica, socio-histórica,
psicológica e econômica. Colaboraram para sua realização
Yuren, Albero, Robin, Vignaux e Triby.
Na segunda parte, a autoformação, como uma prática
inovadora, foi examinada a partir de ângulos diversos, contando,
para tanto, com a colaboração de Poteaux, Abé-Hildenbrand,
Gremmo, Paquelin e Choplin.
Na terceira parte, a relação entre a noção
e práticas mediadas pelas tecnologias, foi abordada por Thibault,
Linard e Compte.
Esses enfoques foram colocados em discussão, no decorrer do livro,
por Carré, Caspar e Landry que teceram comentários na apresentação
de cada uma das três partes. A obra foi introduzida por Apollon,
com uma leitura de um ponto de vista sócio-político, e encerrou-se
com uma crítica epistemológica realizada por Barbier.
Este trabalho se propunha a estabelecer uma relação entre
a reflexão teórica, a análise de práticas
e a dimensão ética da ação individual e coletiva,
como uma iniciativa relevante face aos impactos provocados pelas tecnologias
digitais. Os projetos educativos e as necessidades das pessoas, as responsibilidades
dos que detém o poder e os deveres cívicos, mesmo os mais
simples, são pensados em escala global. Estamos diante de um dos
desafios mais importantes desse início de século.
Entrevista
realizada por Miryan Celaro e revisada por
Anete Amorin Pezzini, professoras da UNISINOS.
Para
maiores informações visitar o site desse grupo de pesquisadores:
http://www.e-pathie.org/membres/albero.htm.
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